O Surgimento da Filosofia na Grécia Antiga

setembro 25, 2008 mariacremilda

1.      A passagem do pensamento mítico para o filosófico-científico

Os diferentes povos da Antiguidade – assírios e babilônios chineses e indianos, egípcios, persas e hebreus –, todos tiveram visões próprias da natureza e maneiras diversas de explicar os fenômenos e processos naturais. Só os gregos, entretanto, fizeram ciência, e é na cultura grega que podemos identificar o princípio deste tipo de pensamento que podemos denominar, nesta sua fase inicial, de filosófico-científico.

O pensamento mítico consiste em uma forma pela qual um povo explica aspectos essenciais da realidade em que vive: a origem do mundo, o funcionamento da natureza e dos processos naturais e as origens deste povo, bem como seus valores básicos. O mito caracteriza-se, sobretudo pelo modo como estas explicações são dadas, ou seja, pelo tipo de discurso (fictício ou imaginário) que constitui.

As lendas e narrativas míticas não são produto de um autor ou autores, mas parte da tradição cultural e folclórica de um povo. O mito é, portanto, essencialmente fruto de uma tradição cultural e não da elaboração de um determinado indivíduo.

Por ser parte de uma tradição cultural, o mito configura assim a própria visão de mundo dos indivíduos, a sua maneira mesmo de vivenciar esta realidade. O mito não se justifica, não se fundamenta, portanto, nem se presta ao questionamento ou à crítica. Ou o indivíduo é parte dessa cultura e aceita o mito como visão do mundo, ou não pertence a ela e, nesse caso, o mito não faz sentido para ele. Um dos elementos centrais do pensamento mítico e de sua forma de explicar a realidade é o apelo ao sobrenatural, ao mistério, ao sagrado, à magia.

É Aristóteles que afirma ser Tales de Mileto o iniciador do pensamento filosófico-científico. Podemos considerar que este pensamento nasce basicamente de uma insatisfação com o tipo de explicação do real que encontramos no pensamento mítico. É nesse sentido que a tentativa dos primeiros filósofos da escola jônica foi buscar uma explicação do mundo natural baseada essencialmente em causas naturais, o que consiste no assim chamado naturalismo da escola. A chave da explicação do mundo de nossa experiência estaria então, para esses pensadores, no próprio mundo, e não fora dele.

É significativo que Tales de Mileto seja considerado o primeiro filósofo e que o pensamento filosófico tenha surgido não nas cidades do continente grego como Atenas, mas nas colônias gregas do Mediterrâneo oriental, no mar Jônico. Nessas cidades conviviam diferentes culturas, e de forma harmoniosa, pois o interesse comercial fazia com que os povos que aí se encontravam, fossem bastante tolerantes. É possível, assim, que a influência de diferentes tradições míticas tenha levado à relativização dos mitos. O caráter global, absoluto, da explicação mítica teria se enfraquecido no confronto entre diferentes mitos e tradições.

 

 2.      Noções fundamentais do pensamento filosófico-científico

 

Ø  A physis

O objetivo de investigação dos primeiros filósofos-cientistas é o mundo natural; sendo que suas teorias buscam dar uma explicação causal dos processos e dos fenômenos naturais a partir de causas puramente naturais, isto é, encontráveis na natureza, no mundo concreto e não no divino como nas explicações míticas.

 

Ø  A causalidade

Explicar é relacionar um efeito a uma causa que o antecede e o determina. Explicar é, portanto, reconstruir o nexo causal existente entre os fenômenos da natureza, é tomar um fenômeno como efeito de uma causa. O que distingue a explicação filosófica-científica da mítica é a referência apenas a causas naturais.

A explicação causal possui, entretanto, um caráter regressivo. Ou seja, explicamos sempre uma coisa por outra e há assim a possibilidade de se ir buscando uma causa anterior, mais básica, até o infinito.

 

Ø  A arqué (elemento primordial)

A fim de evitar a regressão ao infinito da explicação causal, esses filósofos postularam a existência de um elemento primordial que serviria de ponto de partida para todo o processo. Tales foi o primeiro a formular essa noção, afirmava ele ser a água (hydor) o elemento primordial. Porém, o importante na contribuição de Tales não é a escolha da água, mas a própria idéia de elemento primordial.

A importância da noção de arqué está exatamente na tentativa por parte desses filósofos de apresentar uma explicação da realidade em um sentido mais profundo, tal princípio daria precisamente o caráter geral a esse tipo de explicação, permitindo considerá-la como inaugurando a ciência.

 

Ø  O cosmo

O cosmo é o mundo natural, bem como o espaço celeste, enquanto realidade ordenada de acordo com certos princípios racionais. O cosmo, entendido assim como ordem, opõe-se ao caos (kaos), que seria precisamente a falta de ordem. É importante notar que a ordem do cosmo é uma ordem racional, é a racionalidade deste mundo que o torna compreensível, por sua vez, ao entendimento humano.

 

Ø  O logos

O logos significa discurso, mas ele difere fundamentalmente do mythos, a narrativa de caráter poético que recorre aos deuses e ao mistério na descrição do real. O logos é fundamentalmente uma explicação, em que razões são dadas. É nesse sentido que o discurso dos primeiros filósofos é um logos.

 

Ø  O caráter crítico

As teorias formuladas pelos primeiros filósofos não eram de forma dogmática, não eram apresentadas como verdades absolutas e definitivas, mas como passíveis de serem discutidas, de suscitarem divergências e discordância.

 

Karl Popper

 

            Em lugar de uma transmissão dogmática da doutrina encontramos uma nova atitude, a tradição crítica da doutrina. A dúvida e a crítica existiam certamente antes disso. O que é novo, porém, é que a crítica tornou-se agora, por sua vez, parte da tradição da escola.

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  • 1. I  |  março 1, 2010 às 11:53 pm

    valeu! ajudou muito

    • 2. mariacremilda  |  março 4, 2010 às 1:39 am

      tudo bem


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